FRIO SILÊNCIO
logo após encerrada nossa discursão, fomos acometidos
por intenso silêncio, um silêncio que precedia as palavras,
um silencio frio e afiado, como uma navalha,
que naquele instante sentia que cortara facilmente todas as expectativas
de ficarmos juntos. Perguntava -me, seria o fim da nossa relação?
Caminhávamos, e mesmo com a ausência das palavras,
dizíamos muitas coisas, a dúvida ali, presente gritava
em meus ouvidos, continuaríamos juntos?
Desconfiava que o silêncio não estava ao meu favor, sentir que ele
buscava um acordo com as palavras, estas sim, ficariam
encarregadas de repetir o que o silêncio havia dito outrora?
mas antes, Caminhávamos.
Os nossos passos seguiam em descompassos, ela tinha
pressa, eu, ao contrario, insistia em diminuir o ritmo,
queria ganhar tempo para quem sabe encontrar um
meio de romper com o silêncio.
A rua estava praticamente vazia, havia apenas uma senhora negra,
magra e de baixa estatura aparentando ter uns 80 anos, com um
lenço branco enrolado em volta da cabeça, manuseando um arcaico
cachimbo em suas tremulas mãos, lembrava
minha finada Vó. Estava sentada na parte mais
alta da calçada de uma bela casa antiga, de onde me
fitou com um olhar aconselhador como se dissesse meu filho não
à siga, espere um pouco meu jovem, há tempo para todas
as coisas, e com os sentimentos não é diferente, deixe-a
caminhar sozinha não à pressione, o tempo de cada um
é singular. Estranhamente, seguir aquele conselho silencioso
dito com os olhos. De repente ela parou e pronunciou as
palavras de despedida, disse; até breve! em vez do temido
adeus, fiquei aliviado, recebi um rápido beijo na face e
um longo abraço, e mais nada, além da promessa de nos
encontrarmos novamente. Não era o fim.
No retorno para casa, fiquei relembrando dos
nossos momentos, e novamente fui atormentado
por aquela dúvida cruel. Ainda seriamos companheiros?
não conseguia imaginar viver sem seu lindo sorriso negro,
o que seria do Egito sem o Rio Nilo? ela era minha fonte de vida.
As lembranças da noite anterior não saiam da minha
cabeça, as conversas, as risadas e o vinho compartilhado.
Cantávamos e fazíamos amor. A poesia do viver junto recitava
em meu coração. Estávamos juntos movidos talvez por um
dualismo consensual. Quando voltei a si, passei a reparar
com mais detalhes nas ruas, nas casas, nas pessoas, vi que
aquela simpática senhora que doara o conselho
ainda estava no portão. Agradeci com um sorriso e um aceno
de mão. A Senhora antes de entrar então me disse: -
O problema de vocês jovens é que tratam tudo com
intensidade. Não esqueça que na juventude temos o
tempo a nosso favor.
Descobrimo-nos numa bela madrugada de sexta feira, onde
o vinho e a solidão eram fies companheiros. Às vezes
por falta de recursos o vinho era ausente, mas a solidão
não, esta, estava sempre presente, fiel companheira.
Decidir não me preocupar se ficaremos juntos,
pronto! isso mesmo! chega! Para que tanta preocupação?
se tiver que ser será. Será mesmo? o problema é que
não acredito em destino, e há muito tempo que entendo
que as coisas são construídas, resumindo não acredito
em sorte ou acaso. Tenho a impressão que ao pensar
que as coisas aconteçam independentes do nosso
querer e do que planejamos não é lá algo correto,
saber que não tenho autonomia sobre meu próprio
destino, isto sim, é algo que realmente me preocupa.
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