sábado, 3 de março de 2012

A Dança Dos Desamores




                   A Dança Dos Desamores

Por breve momentos tive a sobre meus braços, e juntos  dançamos embalados por antigas  canções românticas. 

Ouvíamos músicas  tristes que traziam em suas melodias a manifestação do sofrimento e da dor, dos que amam e não são correspondidos, daqueles que desesperadamente  almejam a plena felicidade ao lado de quem realmente 
desejam, ao invés dos pseudos sorrisos de alegrias, distribuídos aos falsos amores e paixões. 

Dois corpos negros que bailavam  e suavam intensamente, aliviando o calor  no vinho gelado,  que  em cada gole dado do suave vinho distribuíam  sorrisos secos  de cristais, que  facilmente se quebravam  ao incidirem com o amor de outros amores.

Na velha vitrola ainda tocava antigos discos de Blues,   ouvíamos os cantos daquelas vozes negras,  roucas e melancólicas que suplicavam a morte ao ter que viver sem poder amar e ser amado. Dançavamos e desequilibrávamos  como dois bêbados embriagados de tristeza e infelicidade, que em cada passo tímido e continuo realizado, se configurava a desinibida inlucidez dos desamores. 
 
Seus desmensurados olhos  assemelhavam-se a dois rios secos, que contraditoriamente inundavam o ambiente de dor e desamor. Mas fingíamos, oh sim, fingíamos! Representávamos bem, eramos dois principiantes atores em dois desajeitados dançarinos que harmonizados e instigados pelas canções tristes dançavam, interpretando alegria  num cenário de tristeza.

 Eu, por minha vez, sentia vontade de tê-la
 eternamente em meus braços. Ah, se minha melodia tivesse o mesmo compasso e batida de seu coração, seriamos movidos pelo mesmo ritmo e viveríamos do mesmo tempo e na mesma sintonia, seriamos felizes e mudaríamos o ritmo da música. Mas, o fato era que meu amor não tocava em  seu coração, sentia que  sua canção buscava outro ritmo.

Meus pensamentos projetavam minha vida em sua vida. Mesmo sabendo que sua parceria era temporária, queria aproveitar o máximo, e por alguns momentos pode fazê-la esquecer dos amores não correspondidos ou marcados por ingratidão.

Se ela permitisse  agregaria em seus sentimentos os meus sentimentos.  Mas
uma pena mesmo são as canções românticas terminarem tão rapidamente  e com elas findarem todas as oportunidades de conquistas. Mas são tantas as musicas e tantos os momentos, pena não serem muitos os desamores que nossos corações possam suportar. 

Contudo, posso contemplar o destino, afinal foi minha parceira em canções românticas antigas. E ainda hoje continuo a dançar, só que desta
vez acompanhado de uma intensa e fiel nostalgia.

Obras e Sobras



Obras e Sobras

 Sr. Antônio caminhava a passos lentos e cruzados, e realizando 
uma dança involuntária, seu gingado denunciava, não estava sóbrio. 
Insistentemente caminhava, cambaleava, tropeçava e caia, buscava 
desesperadamente apoio em qualquer pessoa ou algo 
que pudesse ajuda-lo a manter-se de pé. Seu velho corpo negro, 
dentro dos apenas cinquenta e cinco anos 
de idade,  desequilibrava  sobre os seus pés doloridos e inchados. 
Seus pés  possuíam dedos grossos, compridos e feridas profundas, 
como as que tinha na alma, consequência   das inúmeras massas de bolo
 de concreto que preparou para construir prédios saborosos para o 
deleite de alguns poucos que tinham condições financeiras de
 experimentá-lo. 
O caminho que Sr. Antônio seguia não era o que realmente 
desejava seguir. Nunca foi dono de nada, e agora, nem mesmo de sua
 vontade, seus passos contrariavam a sua ordem, seguiam em
 anarquia completa. Os diversos olhares inquisidores, 
daqueles que se julgavam sóbrios, condenavam-no. Mas, o velho
 homem não se importava, estava mais preocupado chegar em 
algum lugar que de fato pudesse repousar.
Algumas vezes tombava sobre as rústicas calçadas rindo
 com toda força de tudo e todos, principalmente daqueles que
 passavam do seu lado ou sobre ele. Quando menos se esperava
 chorava nas pausas do entre risos, Sr. Antônio representava o cenário 
perfeito de sentimentos antagônicos.
Seus pés  lhe castigavam duramente, as feridas não cicatrizavam 
aquela dor continua incomodava muito. Foi ao hospital, inclusive que 
ajudou a construir e ouviu mais uma vez da atendente irritada:
- Senhor Não tem médico! Não tem vaga! Não tem remédio!
 recebeu um coquetel de nãos, Isso obviamente não ajudava a passar sua dor. 
Sr. Antônio pensava constantemente em sua terra natal, Ceará. 
Sentia falta de sua mãe e irmãos, por mais difícil que fosse as condições
  lá não faltava o pão, não faltava a farinha, não faltava o arroz nem
 mesmo o feijão, e o amor? o amor  tinha mais sustância.
Chegou em São Paulo, com sua companheira Dona Josefa, também 
cearense mulher forte e de muita fé, era conhecida na favela 
como Zefa, benzedeira bem requisitada. Tiveram cinco filhos, 
três homens e duas mulheres. Todos frequentaram a escola, 
mas nenhum conseguiu terminar os estudos, tiveram que abandonar  
os cadernos para trabalhar e ajudar na despesas de casa. 
Seu Antônio constituiu família e construiu prédios.
Dona Zefa,  ajudava nas despesas de casa, com as diárias que
 fazia nas casas do centro de São Paulo, com o pouco que recebia 
pagava algumas contas. 
Sr. Antonio reclamava constantemente ao Patrão, dizia que trabalhava
 muito e ganhava pouco, sentia uma imensa raiva ao perceber que
 suas reivindicações era completamente ignorada pelo seu chefe, 
que o mandava voltar ao trabalho. Seu desejo era com suas próprias
 mãos mergulhar aquele homem arrogante de terno branco e gravata
 listrada dentro do concreto, para quem sabe assim ele sentir amargo 
sabor da realidade.
Hoje, os filhos e filhas do Sr. Antônio e Dona Josefa estão todos casados,
 menos o mais novo, o Antônio filho, este vê o que não existe e diz o que 
não tem sentido, continua em casa aos cuidados da mãe.
No domingo de pascoa, Sr. Antônio saiu cedo disse a família que logo
 iria voltar, não tomou café, mas passou no bar. Bebeu algumas doses 
de pinga e foi buscar o pagamento de uma obra que realizou na vila.
 Mas uma vez seguiu caminhando, cambaleando e traçando os 
passos até ser atingindo violentamente por um caminhão de material
 de construção, que o atropelou e matou.
Hoje quando vamos visitá-lo no cemitério do bairro que também ajudou
 a construir e o único lugar que teve condições financeira de morar sem 
ter que pagar aluguel,  podemos ler em sua lápide a seguinte frase:
               “ Descansa aqui um homem de obras, que realizou obras, mas das
                                      obras que realizou só obteve sobras”

(dedicado ao meu avô Antônio Rodrigues, que ao caminhar por estas
 calçadas cinzentas e depressivas optou involuntariamente por algo que
 denominamos de rua, e foi rapidamente punido por tal contravenção.)
                                                                                                                                             
                                                                                                                                                  João Cairo