sábado, 3 de março de 2012

Obras e Sobras



Obras e Sobras

 Sr. Antônio caminhava a passos lentos e cruzados, e realizando 
uma dança involuntária, seu gingado denunciava, não estava sóbrio. 
Insistentemente caminhava, cambaleava, tropeçava e caia, buscava 
desesperadamente apoio em qualquer pessoa ou algo 
que pudesse ajuda-lo a manter-se de pé. Seu velho corpo negro, 
dentro dos apenas cinquenta e cinco anos 
de idade,  desequilibrava  sobre os seus pés doloridos e inchados. 
Seus pés  possuíam dedos grossos, compridos e feridas profundas, 
como as que tinha na alma, consequência   das inúmeras massas de bolo
 de concreto que preparou para construir prédios saborosos para o 
deleite de alguns poucos que tinham condições financeiras de
 experimentá-lo. 
O caminho que Sr. Antônio seguia não era o que realmente 
desejava seguir. Nunca foi dono de nada, e agora, nem mesmo de sua
 vontade, seus passos contrariavam a sua ordem, seguiam em
 anarquia completa. Os diversos olhares inquisidores, 
daqueles que se julgavam sóbrios, condenavam-no. Mas, o velho
 homem não se importava, estava mais preocupado chegar em 
algum lugar que de fato pudesse repousar.
Algumas vezes tombava sobre as rústicas calçadas rindo
 com toda força de tudo e todos, principalmente daqueles que
 passavam do seu lado ou sobre ele. Quando menos se esperava
 chorava nas pausas do entre risos, Sr. Antônio representava o cenário 
perfeito de sentimentos antagônicos.
Seus pés  lhe castigavam duramente, as feridas não cicatrizavam 
aquela dor continua incomodava muito. Foi ao hospital, inclusive que 
ajudou a construir e ouviu mais uma vez da atendente irritada:
- Senhor Não tem médico! Não tem vaga! Não tem remédio!
 recebeu um coquetel de nãos, Isso obviamente não ajudava a passar sua dor. 
Sr. Antônio pensava constantemente em sua terra natal, Ceará. 
Sentia falta de sua mãe e irmãos, por mais difícil que fosse as condições
  lá não faltava o pão, não faltava a farinha, não faltava o arroz nem
 mesmo o feijão, e o amor? o amor  tinha mais sustância.
Chegou em São Paulo, com sua companheira Dona Josefa, também 
cearense mulher forte e de muita fé, era conhecida na favela 
como Zefa, benzedeira bem requisitada. Tiveram cinco filhos, 
três homens e duas mulheres. Todos frequentaram a escola, 
mas nenhum conseguiu terminar os estudos, tiveram que abandonar  
os cadernos para trabalhar e ajudar na despesas de casa. 
Seu Antônio constituiu família e construiu prédios.
Dona Zefa,  ajudava nas despesas de casa, com as diárias que
 fazia nas casas do centro de São Paulo, com o pouco que recebia 
pagava algumas contas. 
Sr. Antonio reclamava constantemente ao Patrão, dizia que trabalhava
 muito e ganhava pouco, sentia uma imensa raiva ao perceber que
 suas reivindicações era completamente ignorada pelo seu chefe, 
que o mandava voltar ao trabalho. Seu desejo era com suas próprias
 mãos mergulhar aquele homem arrogante de terno branco e gravata
 listrada dentro do concreto, para quem sabe assim ele sentir amargo 
sabor da realidade.
Hoje, os filhos e filhas do Sr. Antônio e Dona Josefa estão todos casados,
 menos o mais novo, o Antônio filho, este vê o que não existe e diz o que 
não tem sentido, continua em casa aos cuidados da mãe.
No domingo de pascoa, Sr. Antônio saiu cedo disse a família que logo
 iria voltar, não tomou café, mas passou no bar. Bebeu algumas doses 
de pinga e foi buscar o pagamento de uma obra que realizou na vila.
 Mas uma vez seguiu caminhando, cambaleando e traçando os 
passos até ser atingindo violentamente por um caminhão de material
 de construção, que o atropelou e matou.
Hoje quando vamos visitá-lo no cemitério do bairro que também ajudou
 a construir e o único lugar que teve condições financeira de morar sem 
ter que pagar aluguel,  podemos ler em sua lápide a seguinte frase:
               “ Descansa aqui um homem de obras, que realizou obras, mas das
                                      obras que realizou só obteve sobras”

(dedicado ao meu avô Antônio Rodrigues, que ao caminhar por estas
 calçadas cinzentas e depressivas optou involuntariamente por algo que
 denominamos de rua, e foi rapidamente punido por tal contravenção.)
                                                                                                                                             
                                                                                                                                                  João Cairo




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