Obras e Sobras
Sr. Antônio caminhava a passos lentos e cruzados, e realizando
uma dança involuntária, seu gingado denunciava, não estava sóbrio.
Insistentemente caminhava, cambaleava, tropeçava e caia, buscava
desesperadamente apoio em qualquer pessoa ou algo
que pudesse ajuda-lo a manter-se de pé. Seu velho corpo negro,
dentro dos apenas cinquenta e cinco anos
de idade, desequilibrava sobre os seus pés doloridos e inchados.
Seus pés possuíam dedos grossos, compridos e feridas profundas,
como as que tinha na alma, consequência das inúmeras massas de bolo
de concreto que preparou para construir prédios saborosos para o
deleite de alguns poucos que tinham condições financeiras de
experimentá-lo.
O caminho que Sr. Antônio seguia não era o que realmente
desejava seguir. Nunca foi dono de nada, e agora, nem mesmo de sua
vontade, seus passos contrariavam a sua ordem, seguiam em
anarquia completa. Os diversos olhares inquisidores,
daqueles que se julgavam sóbrios, condenavam-no. Mas, o velho
homem não se importava, estava mais preocupado chegar em
algum lugar que de fato pudesse repousar.
Algumas vezes tombava sobre as rústicas calçadas rindo
com toda força de tudo e todos, principalmente daqueles que
passavam do seu lado ou sobre ele. Quando menos se esperava
chorava nas pausas do entre risos, Sr. Antônio representava o cenário
perfeito de sentimentos antagônicos.
Seus pés lhe castigavam duramente, as feridas não cicatrizavam
aquela dor continua incomodava muito. Foi ao hospital, inclusive que
ajudou a construir e ouviu mais uma vez da atendente irritada:
- Senhor Não tem médico! Não tem vaga! Não tem remédio!
recebeu um coquetel de nãos, Isso obviamente não ajudava a passar sua dor.
Sr. Antônio pensava constantemente em sua terra natal, Ceará.
Sentia falta de sua mãe e irmãos, por mais difícil que fosse as condições
lá não faltava o pão, não faltava a farinha, não faltava o arroz nem
mesmo o feijão, e o amor? o amor tinha mais sustância.
Chegou em São Paulo, com sua companheira Dona Josefa, também
cearense mulher forte e de muita fé, era conhecida na favela
como Zefa, benzedeira bem requisitada. Tiveram cinco filhos,
três homens e duas mulheres. Todos frequentaram a escola,
mas nenhum conseguiu terminar os estudos, tiveram que abandonar
os cadernos para trabalhar e ajudar na despesas de casa.
Seu Antônio constituiu família e construiu prédios.
Dona Zefa, ajudava nas despesas de casa, com as diárias que
fazia nas casas do centro de São Paulo, com o pouco que recebia
pagava algumas contas.
Sr. Antonio reclamava constantemente ao Patrão, dizia que trabalhava
muito e ganhava pouco, sentia uma imensa raiva ao perceber que
suas reivindicações era completamente ignorada pelo seu chefe,
que o mandava voltar ao trabalho. Seu desejo era com suas próprias
mãos mergulhar aquele homem arrogante de terno branco e gravata
listrada dentro do concreto, para quem sabe assim ele sentir amargo
sabor da realidade.
Hoje, os filhos e filhas do Sr. Antônio e Dona Josefa estão todos casados,
menos o mais novo, o Antônio filho, este vê o que não existe e diz o que
não tem sentido, continua em casa aos cuidados da mãe.
No domingo de pascoa, Sr. Antônio saiu cedo disse a família que logo
iria voltar, não tomou café, mas passou no bar. Bebeu algumas doses
de pinga e foi buscar o pagamento de uma obra que realizou na vila.
Mas uma vez seguiu caminhando, cambaleando e traçando os
passos até ser atingindo violentamente por um caminhão de material
de construção, que o atropelou e matou.
Hoje quando vamos visitá-lo no cemitério do bairro que também ajudou
a construir e o único lugar que teve condições financeira de morar sem
ter que pagar aluguel, podemos ler em sua lápide a seguinte frase:
“ Descansa aqui um homem de obras, que realizou obras, mas das
obras que realizou só obteve sobras”
(dedicado ao meu avô Antônio Rodrigues, que ao caminhar por estas
calçadas cinzentas e depressivas optou involuntariamente por algo que
denominamos de rua, e foi rapidamente punido por tal contravenção.)
João Cairo
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